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A autodescoberta IPublicado em 2013-04-26 na categoria Contos eróticos / Fantasias
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Quando se atinge certa idade, a vida torna-se diferente; ou melhor, a nossa visão sobre a existência e a duração da nossa jornada ficam – em certa medida – mais repletas de incertezas, impulsionando as pessoas na direcção do desejo de desfrutar ao máximo os prazeres físicos que a vida proporciona, já que, a certa altura, tudo isso terá se perdido.E esse era o pensamento que rondava a alma e a mente de Sílvia, que, aos quase cinquenta anos de idade, temia que nem tudo que a vida lhe permitira desfrutar a contento. Casou-se cedo demais, teve filhos cedo demais, tornou-se chefe do lar cedo demais. Tudo isso após apenas alguns namoricos insignificantes, o encontro casual com Paulo e o arrebatamento com a possibilidade de sair do convívio com os pais dominadores e cuja experiência de vida não fora suficiente para dirimir todas as dúvidas e incertezas que qualquer adolescente recém-saída do colégio e iniciando uma faculdade ainda tinha rondando a sua alma e a sua mente. Mesmo assim enfrentou a vida. Os filhos cresceram e também procuraram os seus caminhos, de preferência longe dos pais, e restou-lhe o marido – absorvido pela labuta diária e desconectado das necessidades da esposa, principalmente aquelas que diziam respeito ao enorme desejo sexual que ela vinha sentindo nos últimos tempos. Uma vez por outra, via-se com o olhar arregalado em frente à televisão à cabo, assistindo a pornografia (que ela simplesmente achava deliciosa), pensando em como ela também desejava uma aventura como aquela que aparecia nos filmes. Homens bem dotados, repletos de vigor físico, carinhosos, ou mesmo brutais algumas vezes, mas que mesmo assim, desempenhavam o papel do macho excitado (algumas vezes apaixonado, pensava ela), realizando todas as fantasias que uma mulher podia ter, e deixando-as plenamente satisfeitas com o prazer obtido por uma insaciedade indescritível. A bem da verdade, ela sabia que aquilo era apenas coisa de cinema e televisão e que figuras como a protagonista de “Historie d'O”, ou mesmo “Emanuelle” tratavam-se de resultados das mentes criativas de escritores e que jamais existiu alguém que tivesse passado por tantas aventuras deliciosas com o potencial de delas extrair o máximo de prazer. Apenas na fracção tudo aquilo podia ser verdade, e Sílvia sabia que a realidade era bem diferente – mais cinza, mais triste, mais enfadonha e mais destituída de expectativas – exigindo que ela convivesse mesmo assim com a curta perspectiva das eventuais e inconstantes noites em que Paulo a procurava e eles acabavam por fazer um sexo morno, muito próximo das limitações impostas pelo peso dos anos e das diversas responsabilidades assumidas. Também na internet ela navegava em busca de sítios electrónicos voltados para o mesmo tema. Eram imagens, vídeos e mensagens altamente provocativas que a deixavam à beira de um orgasmo que, com frequência, era o final de uma masturbação quase inconsciente decorrente do que via e ouvia. E também frequentemente, acabava por deitar-se evitando a proximidade do corpo do marido, já que sentia-se envergonhada por ter feito o que acabara de fazer sem a participação do companheiro de tantos anos. “Que coisa louca!”, pensava ela ao acordar pela manhã após uma noite intranquila e já sem a companhia de Paulo que saíra para o trabalho. Queria confessar-lhe o inconfessável: queria muito ser masturbada pelo seu marido, desejada a ponto de que ele lhe fizesse um sexo oral bem gostoso enquanto ela o masturbava lentamente. Queria dizer-lhe que queria sentir-se desejada, mesmo sabendo da impossibilidade de que fizessem sexo todas as noites. Queria, enfim, sentir-se mulher de verdade; porém não tinha coragem de dizê-lo e acabava por entregar-se ao sexo solitário em frente à televisão ou ao computador, ouvindo e vendo coisas que queria muito para si mesma! Triste, … triste viver uma ilusão e um anseio que jamais viriam! E era desse modo – morno e vazio – que os dias sucediam-se uns aos outros, fazendo Sílvia mais infeliz e mais solitária do que antes. Supria, é verdade, esse vazio com actividades diárias que lhe preenchessem a mente: academia de ginástica, natação, clube, jogo de cartas com as amigas, cinema eventual, passeios ao ar livre. Mas, para bem da verdade, tudo isso não passava de mera figuração, atitudes nitidamente evasivas em relação ao que realmente a afligia: o desejo de ser desejada e de desejar alguém. E mesmo sem qualquer perspectiva de melhora, Sílvia continuava a procurar por algo que não sabia muito bem o que era, assim como continuava a sobreviver ao lado de Paulo com as limitações que isso significava. Certa noite, navegando na web, ela deparou-se com um sítio denominado “Ilha dos Sonhos”. Na homepage, havia um aviso de que o conteúdo era voltado para adultos e que os administradores não se responsabilizavam pelo acesso. Aquela foi a frase-chave que encheu a cabeça daquela mulher de curiosidade mesclada com excitação. E navegando nas páginas seguintes descobriu que se tratava de um sítio que promovia a realização das fantasias dos seus assinantes, bastando, para tanto, que preenchessem um formulário indicando, ao final, que tipo de fantasia queriam ver realizada. Não havia custo, já que ainda segundo o sítio, a finalidade era apenas reunir pessoas que tinham o mesmo anseio – de um lado o sonhador e de outro o realizador – sendo que, exceptuando-se a garantia da integridade moral e pessoal dos envolvidos, a realização da fantasia ficaria por conta de ambos, não havendo qualquer envolvimento dos administradores após o primeiro encontro virtual promovido entre os interessados através do meio electrónico. Sílvia sentiu-se muito excitada com tudo aquilo. Afinal de contas, fantasia sexual sempre fora um tabu para ela, algo existente apenas no mundo da imaginação de roteiristas de filmes eróticos e escritores sem classificação que escreviam na internet. Jamais acreditou que fosse possível realizar uma fantasia de facto, algo como ser abordada por um policia bonito e acabar por fazer sexo no banco detrás da viatura, ou ainda ser sequestrada por um lindo criminoso que antes do resgate preferia algo mais divertido e pervertido. Não, tudo aquilo não passava de conto do vigário, pensou ela; quem acreditaria! Todavia, como a curiosidade sempre matou o gato, Sílvia não se fez de rogada e alguns dias depois, ainda muito excitada com a ideia de realizar uma fantasia sexual, acedeu o tal sítio e passou a preencher o registo inicial exigido pelos administradores. Alguns dados básicos, um endereço de e-mail, um avatar e um nome código de tratamento (que, por óbvio ela escolheu Emanuelle, com dois “eles” para realçar a aura de proibido). Enviou o registo e recebeu como resposta que ele estaria sujeito à aprovação e que, brevemente ela receberia uma mensagem para aceder à sua página pessoal e descrever – com todos os detalhes – a fantasia que pretendia ver realizada. As noites que se seguiram foram de pura impaciência e total expectativa; ficou com receio que Paulo percebesse alguma coisa e tratou de disfarçar (se é que isso fosse possível), indo deitar-se mais cedo ou mais tarde que o marido e acedendo constantemente ao seu correio electrónico pessoal – que ela criara especialmente para aquela finalidade – ansiosa por saber se seu registo ia ser aceito. E, de facto, isso aconteceu quando ela menos esperava. Foi na manhã de um dia qualquer que ela, após despedir-se do marido e tomar um banho, sentiu necessidade de aceder ao seu e-mail, posto que a curiosidade estava quase a sufocava nos seus últimos dias. Nua como saíra do banho ligou o seu notebook e assim que acedeu ao correio electrónico, viu que o site havia respondido ao seu registo que “fora aceito com sucesso”, inserindo um link de acesso para que ela entrasse na sua página pessoal dentro da área privada. Havia uma mensagem a informar que o acesso seria exclusivo daqueles “associados” que dispunham-se a agir como “realizadores de fantasias”, e que ninguém mais poderia ler o conteúdo. Pediu também uma doação ao sítio (óbvio, não!) para que este pudesse manter-se, posto que vivia de anunciantes e que jamais ganhava algo com a intermediação. E Sílvia, que estava eufórica com o fato de ter sido aceita, não se fez de rogada e doou logo vinte euros. Após ter realizado a transferência da doação, voltou ao e-mail e acedeu ao link fornecido pelo site. Imediatamente abriu-se uma página com cabeçalho a ser preenchido com o login de acesso e a senha que ela anteriormente criara para tal fim. Em seguida, abriu-se mais uma página com algumas perguntas específicas sobre o fantasia. Sílvia foi preenchendo cada uma delas com certo recato, posto que eram perguntas bem íntimas e pessoais – algumas até mesmo inconfessáveis – mas necessárias para que o “realizador” pudesse ter uma ideia de quais os gostos e preferências da sonhadora. |
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