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Pensar o lesbianismo - Entrevista com Ochy Curiel Publicado em 2012-08-07 na categoria SexCult / Lesbianismo
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"O lesbianismo não se entende somente como uma prática sexual, mas também, sobretudo, como uma atitude de vida, uma ética emoldurada em uma proposta política." A afirmação é da activista feminista Ochy Curiel. Em junho deste ano, o site do Projeto de Desobediência Informativa publicou um interessante artigo da activista feminista intitulado “El lesbianismo feminista: uma propuesta política transformadora”. No documento, Ochy defende o lesbianismo não como uma identidade, uma orientação ou uma opção sexual, mas como uma posição política. Na entrevista a seguir, Ochy fala de como interpreta o movimento lesbofeminista como uma posição política, da representatividade que o movimento possui, dos grupos como o GLBT e das suas aspirações para o lesbianismo feminista. “As lésbicas, as mulheres e a humanidade devem ter uma visão integral da realidade, pois o movimento deve afectar as políticas neoliberais, a guerra, o militarismo, o racismo, os fundamentalismos na vida das mulheres, isto é, como se manifesta realmente o patriarcado em todas as suas formas actuais”, acredita ela. Rosa Inés Curiel Pichardo (Ochy) nasceu na República Dominicana. É cantora e uma importante activista do movimento lésbico-feminista. Desde a década de 1980, trabalha pelos movimentos polulares através do Centro Dominicano de Estudos da Educação, em Santo Domingo. Ajudou a fundar do Ce-mujer, uma organização não-governamental de mulheres que trabalham no departamento de assessoria comunitária. Mais tarde, na década de 1990, Ochy passa a fazer parte da directoria da Casa pela Identidade das Mulheres Afro, uma organização feminista na luta contra o racismo e o sexismo. Ochy também fez parte da Rede de Mulheres Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas. Tem sido organizadora de dois importantes encontros continentais: o Encontro de Mulheres Negras e o Encontro Feminista da América Latina e Caribe. Como é que o lesbianismo feminista pode ser interpretado como uma posição política? A heterossexualidade tem feito com que a independência e a autonomia das mulheres fiquem apagadas da história, propondo a ideia de que elas pertencem aos homens, seja como mãe, seja como esposa. A heterossexualidade obrigatória é usada para justificar o facto de que os homens pensam que o corpo das mulheres lhes pertença e, assim, seja apenas um objeto de exploração para cometer as violências sexuais, os femicídios, a exploração do trabalho etc. O lesbianismo feminista explica que a mulher não depende económica, emocional e materialmente dos homens. Esse já é um acto subversivo frente ao patriarcado e frente a todas essas formas de exploração e subordinação. Não necessitamos dos homens para viver, pois criamos redes solidárias entre mulheres, sejam elas lésbicas, ou não. Essas redes têm gerado outras formas de relação, de sexualidade e prazer, nem falocêntricas nem opressoras. São outras relações sociais não hierárquicas. A partir dessa posição, o lesbianismo, então, não se entende somente como uma prática sexual, mas também, sobretudo, como uma atitude de vida, uma ética emoldurada em uma proposta política. Qual é a representatividade do lesbianismo feminista hoje na América Latina? Qual é a sua força política? Desde então, o corpo e a sexualidade passaram a ser centrais para a política e ele permitiu, além de questionar o caráter heterocentrado do feminismo, abrir novas brechas para o feminismo tanto como teoria social, quanto como prática política. O auge desta época se evidenciou em muitos grupos, redes, articulações, encontros internacionais, enfim, um sem-número de expressões políticas e culturais do lesbianismo feminista latino-americano que chegam até hoje em dia. A sua força política é evidenciar a heterossexualidade como sistema político, opressora em relação às mulheres e à potencialidade do lesbianismo para nossa liberdade e autonomia. Que avanços você percebe no movimento lésbico-feminista desde o seu surgimento? O movimento ainda é mal interpretado pela sociedade civil? No artigo “El lesbianismo feminista: uma propuesta política transformadora”, você fala que o movimento lésbico-feminista passou por um retrocesso na década de 1990. Este retrocesso ainda existe? Outro fenómeno que acredito que tem a ver com esse retrocesso foi a entrada do género como perspectiva política, pois isso fez perder a radicalidade feminista e, unida a este tema, a inviabialização das lésbicas que se reconhecem como parte do movimento GLBT, um movimento de discurso tolerante, mas sem projetos políticos. Algumas alianças estão vazias de conteúdo, como o GLBT, que, para mim, é um movimento misógino e antifeminista. Qual é seu principal objetivo quando diz que o movimento "tem uma responsabilidade histórica de afetar este mundo”? Acho que o lesbianismo feminista não somente deve centrar-se na sexualidade, como também deve considerar como afeta as raças, as classes etc. As lésbicas, as mulheres e a humanidade devem ter uma visão integral da realidade, pois o movimento deve afetar as políticas neoliberais, a guerra, o militarismo, o racismo, os fundamentalismos na vida das mulheres, isto é, atingir tudo aquilo que manifesta realmente o patriarcado em todas as suas formas actuais. As nossas propostas políticas não se diluem em temas como a identidade, pois consideram tanto nossas vidas privadas como públicas, além de nossas subjetividades macroestruturais. É uma proposta que precisa transformar-se em um projeto que transpassa fronteiras, descolonizador de nossas vidas. Essa, para mim, é a proposta do lesbianismo feminista. in, www.unisinos.br/ihu |
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