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Sim, nós somos gays Publicado em 2012-07-19 na categoria SexCult / Homossexualidade
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São jovens que não abrem mão de ser quem são. E de amar à s claras. Sem máscaras. Querem dar a cara, com ou sem o apoio dos pais. São a nova geração gay. Apenas Maria e Manuel, casal de classe média, de 42 e 43 anos, aceitaram dar a cara pela homossexualidade da sua filha Alice. Uma adolescente extremamente bonita, feminina, a milhas de distância do estereótipo da lésbica arrapazada.Há dois anos Alice confessou à mãe que era homossexual. Tinha 14 anos e não aguentou guardar para si o segredo. Os pais apoiaram-na. Ainda pensaram que poderiam ser dúvidas de adolescente, mas com o tempo, a filha fê-los ver que estavam errados. (ver depoimento). Alice ainda não ganhou coragem para assumir a sua identidade sexual aos amigos, colegas ou à restante família. Tem receio das consequências, das reacções. Por isso é a única adolescente nesta reportagem que não dá a cara e o seu verdadeiro nome não é Alice. No entanto, foi ela mesma quem contactou o Expresso, decidida a partilhar a sua história e que pediu aos pais que partilhassem o seu testemunho. Chegam os três pontualmente ao café combinado em Lisboa. Parecem serenos. Cúmplices. Em paz. Quem fala primeiro é o pai. Olhos nos olhos: "É estranho. Esta é a primeira vez que estou a falar em frente à minha filha sobre a sua sexualidade. A mesma questão se poria se estivéssemos a falar das minhas outras duas filhas. O que difere é que a orientação sexual da Alice gera uma tal reacção de rejeição e ignorância por parte da sociedade que nos obriga a dar esta entrevista. Preferia que não fosse necessária". Alice permanece em silêncio. Aceitação natural A mãe recorda como a tentou acalmar quando a filha lhe revelou que gostava de raparigas. "Disse-lhe que estaríamos sempre com ela. Incondicionalmente. Os pais desejam sempre para os filhos a maior felicidade, não é? E estava na altura de nós demonstrarmos isso mesmo. A nossa aceitação foi natural. Talvez tenha ajudado o facto de não sermos preconceituosos. Se ainda não assumimos aos outros elementos da família é porque a nossa filha não se sente preparada". O pai olha para a filha e confessa a sua maior preocupação: "Sinto que pode ser mais difícil para ela ser feliz, que pode encontrar mais entraves na sua vida só pelo facto de gostar de pessoas do mesmo sexo. Mas estaremos aqui para a amparar e aconselhar". A mãe remata o assunto: "É puro egoísmo sermos nós a designar o futuro dos nossos filhos. O importante é apoiá-los nas suas escolhas, respeitá-los, aceitá-los com as suas vontades e desejos. Quanto a mim, a única coisa que me faz distinguir as pessoas é se têm um bom ou mau carácter. Se são bons ou maus cidadãos. Se defendem as causas que acreditam. O resto? São apenas características. Tal como o facto de a Alice ter o cabelo e os olhos castanhos, ser inteligente ou responsável". Foi por acharem exactamente o mesmo, e se sentirem incomodados com o silêncio e o preconceito da sociedade sobre este tema, que o casal Margarida e Paulo, de 51 e 50 anos, decidiu formar a Associação de Mães e Pais Pela Liberdade de Orientação Sexual (AMPLOS) cinco anos após terem descoberto que uma das filhas - Catarina, 22 anos - tinha uma orientação homossexual. "Os pais têm que decidir se querem estar do lado do preconceito contra os filhos ou do lado dos filhos contra o preconceito. Nós esperamos que passe a ser vergonha a homofobia e não a homossexualidade". A socióloga e o professor universitário assumem que passaram numa primeira fase por um processo de adaptação à notícia: "Tal como os nossos filhos, também passamos pela nossa saída do armário, o nosso coming out (processo de revelação da orientação sexual). Porque este não é apenas um assunto dos filhos. Tivemos que revelar aos nossos amigos, familiares, que a nossa filha tinha uma namorada. E fizemo-lo paulatinamente e com o cuidado de ter a sua concordância nessa revelação. Porque o nosso amor por ela é incondicional". De acordo com estes fundadores, a AMPLOS (http://amplosbo.wordpress.com) é basicamente "uma vontade" criada em Junho deste ano. Uma vontade de juntar pais e mães que um dia souberam que um dos seus filhos é gay, lésbica, bissexual ou transgénero. Conscientes de que uma reacção positiva a essa revelação "é fundamental no processo da construção da personalidade dos filhos". O balanço da iniciativa é, segundo eles, bastante positivo. "Estamos neste momento em contacto com 35 pais e mães. Às reuniões da AMPLOS têm vindo cerca de 15, que partilharam os seus medos, as suas preocupações e as suas histórias de amor pelos filhos". Estes encontros decorrem periodicamente entre Lisboa e Porto, contando com maior participação por parte das mães do que dos pais". Para que não haja equívocos, Margarida remata: "Não queremos estar em vez dos nossos filhos protegendo-os da discriminação de que são alvo - isso seria menorizá-los, mas estar ao seu lado nesse movimento longo que tem juntado muitas organizações civis contra a agressão homofóbica, contra o estigma. E digo mais: Somos pelos valores mais fortes da família: Amor aos filhos, à verdade e à liberdade". Pensamentos suicidas O assunto é demasiado sério e a consciencialização da sua cada vez maior dimensão já está a empurrar os investigadores portugueses a debruçarem-se sobre o tema. Inédita em Portugal, a dissertação de Patrícia Rodrigues foi defendida no ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada) há cerca de duas semanas e aprovada com 18 valores. Em causa está justamente o estudo das "ideações suicidas e da homofobia internalizada" nos jovens portugueses. Traduzindo: os pensamentos suicidas que assaltam estes jovens e, simultaneamente, os sentimentos de rejeição que sentem em relação aos gays. Sendo, ou não, eles próprios também homossexuais. A pesquisa abrangeu um universo de 389 pessoas, que responderam a três tipos de inquéritos através da Internet e a idade média dos participantes foi de 19 anos. Do total, 36% autodefiniram-se como gays, 21,9% como lésbicas, 25,2% como bissexuais e 17% como heterossexuais. Assim, 61,4% dos inquiridos assumiram-se como homossexuais. Uma verdadeira surpresa para a investigadora, segundo explicou ao Expresso, alertando para o facto de, à partida, quem respondeu poder ter um interesse pessoal no assunto. De registar ainda que, destes, 44,2% disseram ter sido já vítimas de discriminação, ou seja, quase metade dos participantes! E se o assunto se banaliza em quantidade, o mesmo não se pode dizer da pressão social sobre quem se assume como homossexual. Quando inquiridos sobre "quem sabe da sua sexualidade?", os jovens revelaram que falam da sua orientação sexual a apenas alguns amigos e à família, "mas só a parte, como a irmãos ou somente um dos pais, preferencialmente a mãe". O mais importante, contudo, é que a pesquisa revelou que "os jovens que se autodefiniram como gays apresentam níveis mais elevados de homofobia internalizada". Dito de outra forma: rejeitam-se a eles próprios e aos outros homossexuais. Já os pensamentos suicidas foram mais relevantes junto dos bissexuais. "Parece que os jovens que não assumem abertamente a sua sexualidade têm mais ideação suicida que os jovens que assumem", afirma Patrícia Rodrigues. A explicação deste comportamento poderá estar no facto de que "os jovens que se percepcionam como bissexuais, acomodam dois tipos de sentimentos, o de uma heterossexualidade, que é valorizada socialmente, e o de isolamento próprio de uma eventual identidade homossexual. É entre este turbilhão de sentimentos, potenciado também pela fase da adolescência, que podem surgir pensamentos suicidas, de confusão e não pertença a nenhum destes 'dois mundos'". E finaliza: "A adolescência é o período durante o qual a pessoa procura uma resposta, através das suas relações, de experiências sociais e sexuais, através daquilo que aprende acerca do que é aceitável para a sua consciência". |
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